Cane Corso
Um guarda italiano de olhar fixo, silencioso em casa e demasiado forte para ser educado à pressa.
O Cane Corso é o molosso do sul de Itália que guardava quintas, conduzia gado e enfrentava javali, e continua a ser exatamente esse cão por dentro. Surpreende quem o traz para casa por duas razões opostas: é muito mais sossegado do que o corpo faz supor, capaz de passar a tarde inteira deitado à porta da cozinha, e é muito mais decidido do que se espera de um cão de família, porque avalia sozinho quem entra. Não é uma raça má; é uma raça que amplifica tudo o que o tutor fizer.

Como é viver com um Cane Corso
Dentro de portas é um cão de poucas palavras. Escolhe uma posição de onde vê a entrada e a família ao mesmo tempo, deita-se e fica. Não anda aos círculos, não pede brincadeira de dez em dez minutos e ladra pouco, o que engana muita gente na primeira visita. Com os seus é afetuoso de uma forma pesada e insistente, encosta a cabeça, senta-se em cima dos pés e acompanha as pessoas de divisão em divisão. Com quem não conhece fica quieto a observar, e essa quietude é trabalho, não indiferença.
O cachorro nada tem de sereno. Cresce depressa de mais para o corpo que tem, tromba com os móveis, brinca com a boca sem calcular a força e passa uma adolescência longa, entre o ano e os dois anos, em que volta a perguntar tudo o que parecia arrumado. É a fase em que se decide o adulto. O que se acha engraçado num cão de vinte quilos deixa de ter graça a cinquenta, e a diferença entre uma coisa e outra são apenas oito meses de calendário.
Ao tutor, o Corso exige presença e clareza, não força. Um Corso lê muito bem hesitação e trata-a como convite para decidir ele. Ao mesmo tempo, métodos de confronto com um cão selecionado para não recuar produzem exatamente o cão que ninguém quer. Acresce a parte social: passeios em que as pessoas mudam de passeio, condóminos incomodados, visitas que preferem ficar à porta. Quem não quiser gerir isso todas as semanas ficará mais feliz com outra raça — e o cão também.
O que um Cane Corso precisa todos os dias
Exercício. Cerca de hora e meia repartida por duas ou três saídas, feitas de caminhada com ritmo, subidas e algum trabalho de tração ou de arrasto, que é o esforço para que o corpo foi feito. Não é um cão de corridas longas nem de saltos repetidos, e até ao ano e meio poupam-se articulações em crescimento. No verão do sul do país sai-se cedo e ao fim da tarde, porque um cão preto de 50 kg aquece muito antes de dar sinal.
Socialização e treino. Começa no dia em que chega e não tem data de fim. Precisa de conhecer ruas, elevadores, mercados, bicicletas, crianças a gritar e cães de todos os tamanhos enquanto ainda é manejável ao colo, porque a desconfiança instalada num cão deste porte não tem margem de erro. Aprende com facilidade, gosta de tarefas e trabalha bem por comida e por brincadeira. Aulas com treinador competente não são um extra nesta raça.
Comida. Cresce devagar e o excesso de calorias em cachorro cobra-se mais tarde nas ancas e nos cotovelos. Ração formulada para porte grande, quantidades pesadas em vez de estimadas e duas refeições diárias, sem exercício forte na hora seguinte, porque a torção gástrica é um risco real em cães de peito fundo. No adulto, o peso certo é aquele em que se sentem as costelas com a mão sem as ver de longe.
Pelo. A manutenção é das mais simples entre os cães grandes: pelo curto e áspero, luva de borracha uma vez por semana e um pouco mais nas duas mudas do ano. Larga mais do que se supõe, e os pelos curtos espetam-se nos tecidos. Sobra vigiar as unhas, que são grossas e crescem depressa, as pregas dos beiços depois de beber e as orelhas, que em Portugal se mantêm inteiras, sem qualquer corte.
Saúde. Peça ao criador as radiografias oficiais de anca e cotovelo dos progenitores e informação sobre o coração e os olhos da linha. Na raça descrevem-se displasias, entrópio e ectrópio, prolapso da glândula da terceira pálpebra, epilepsia idiopática, demodicose juvenil, cardiomiopatia dilatada e torção gástrica. É um cão de vida curta para o tamanho, e mantê-lo magro e bem musculado continua a ser a medida isolada que mais anos lhe acrescenta.
O Cane Corso e a lei portuguesa
Ao contrário do que se ouve com frequência, o Cane Corso não consta da Portaria n.º 422/2004, de 24 de abril, que fixa a lista portuguesa de raças potencialmente perigosas. Essa lista tem sete entradas — Cão de Fila Brasileiro, Dogue Argentino, Pit Bull Terrier, Rottweiler, Staffordshire Terrier Americano, Staffordshire Bull Terrier e Tosa Inu — além dos cruzamentos destas raças. O Corso está fora dela, e por isso não lhe são exigidos de origem a licença especial, o seguro obrigatório nem o açaimo permanente na via pública.
Isso não o deixa sem regras. Aplicam-se-lhe as regras gerais de detenção de animais de companhia: identificação eletrónica por microchip registada no SIAC, vacinação antirrábica em dia, registo no município, condução à trela na via pública e alojamento que impeça a fuga. E há um ponto que interessa perceber bem: o Decreto-Lei n.º 315/2009, de 29 de outubro, alterado pela Lei n.º 46/2013, permite que qualquer cão seja classificado como perigoso a título individual, pelo comportamento que teve, independentemente da raça a que pertence.
Depois da lei vem a física, e essa não muda com diplomas. São 50 kg capazes de arrastar um adulto distraído, de saltar uma vedação baixa e de assustar sem intenção nenhuma. Um Corso pede vedação sólida e alta, trela e peitoral à altura da força que tem, um adulto no comando do passeio e um seguro de responsabilidade civil ainda que ninguém o obrigue. Confirme sempre os detalhes na sua junta de freguesia e com o veterinário, porque a legislação pode ser alterada.
Com quem combina o Cane Corso
Combina bem com
- Tutores experientes, com rotina firme e tempo para treinar todos os dias
- Casas com vedação alta e sólida e espaço para um cão pesado
- Quem quer um cão sossegado dentro de casa e atento à entrada
- Famílias com crianças mais velhas que respeitem o descanso do cão
Pensa duas vezes se
- Quem procura guarda instantânea sem investir anos em socialização
- Casas em que o cão passa o dia fechado e sozinho no quintal
- Apartamento sem passeios longos e sem trabalho para a cabeça
- Quem se cansa de explicar o seu cão a vizinhos e visitas
Antes de dizer sim
Entre o ano e os dois anos volta a testar limites, já com quarenta e tal quilos. É a fase que define o adulto: mais rotina, mais socialização e nenhuma disputa de força com ele.
Mesmo sem obrigações legais especiais, um Corso arrasta um adulto e salta vedações baixas. Peitoral adequado, trela curta na cidade e vedação alta poupam acidentes que não têm volta.
Peça radiografias de anca e cotovelo dos pais, evite escadas e saltos no primeiro ano e não dê exercício forte a seguir às refeições, pela torção gástrica.
Perguntas frequentes sobre o Cane Corso
O Cane Corso é uma raça perigosa em Portugal?
Não consta da Portaria n.º 422/2004, que lista as sete raças potencialmente perigosas, ao contrário do que muita gente julga. Segue as regras gerais dos animais de companhia. Ainda assim, qualquer cão pode ser classificado como perigoso a título individual pelo comportamento que teve, e é aí que a educação de cada exemplar conta.
O Cane Corso é bom com crianças?
Com as crianças da própria casa costuma ser tolerante e cuidadoso, e muitos são notavelmente pacientes. Os riscos são o peso, que derruba sem intenção, e o hábito de empurrar com o corpo. Funciona melhor com crianças já crescidas, com regras claras sobre comida e descanso, e sempre com um adulto presente.
O Cane Corso pode viver em apartamento?
Pode, e dá-se surpreendentemente bem, porque em casa é parado e ladra pouco. O que decide não são os metros quadrados: são duas a três saídas por dia com exercício a sério, ocupação mental e um elevador ou umas escadas que ele use com calma. Um quintal sem passeios não substitui isto.
Quanto exercício precisa um Cane Corso?
Cerca de hora e meia por dia, dividida em duas ou três saídas, com caminhada de ritmo e algum trabalho de tração. Até ao ano e meio evitam-se corridas longas, escadas e saltos repetidos, para proteger as articulações. No verão, sair de manhã cedo e ao fim do dia, sobretudo nos cães escuros.
O Cane Corso é bom para primeiro cão?
Em regra não. Não é difícil de ensinar, mas não perdoa incoerência e qualquer erro fica caro por causa do tamanho. Um primeiro tutor com muito tempo, acompanhamento profissional desde cachorro e vontade de trabalhar a socialização durante dois anos consegue; sem essas três condições, é melhor escolher outra raça.
O Cane Corso ladra muito?
Ladra pouco e é justamente por isso que se dá atenção quando ladra. Avisa quem chega, cala-se quando percebe que a situação está gerida e passa o resto do dia calado. Quem procura um alarme sonoro constante engana-se na raça; quem quer sossego em prédio ganha aqui um ponto a favor.
Onde ele pode voltar a ser cão.
No Dog Eco Resort, em Quinta do Anjo, o seu Cane Corso tem campo, água, companhia e uma equipa que percebe de comportamento — para um dia, para as férias ou para aprender.













